Você está sempre em movimento. E as pessoas que você ama também. Você já não é o mesmo de ontem, e muito menos o mesmo da semana passada. E elas também não. Nós somos todos pontos em movimento. Nos cruzamos por determinado tempo. E depois nos afastamos para sempre. E quando por ventura voltamos a nos aproximar, antes de nos afastarmos de novo, nós já somos outras pessoas.
Admiro as pessoas que esquecem. Que não se apegam às coisas, pessoas e épocas com que cruzam pela vida. Elas não sentem saudade. Vivem o presente. E não compreendem a nostalgia. Às vezes eu gostaria de esquecer com mais facilidade. De amar menos o passado, de carregar com mais leveza tudo que vivi. Será que elas valorizam menos o que lhes aconteceu? Será que elas não sentem saudade porque não viveram intensamente, porque de fato não tem grande coisa a lembrar?
É a falta da gente mesmo, do que fomos, dos grandes momentos por que passamos. É o vazio deixado por um tempo que não existe mais, quando várias portas que se fecharam. Minha saudade é vertigem, é mudança. É perceber que não é possível congelar nenhum momento no tempo. Tudo está passando. Eu, você, nossos pais, nossos filhos. Tudo está em trânsito acelerado. Saudade é tentar trancafiar perto da gente aquilo que amamos, é tentar interromper os fluxos para eternizar numa fotografia aquilo que nos faz falta. Saudade é essa tremenda vontade de estar junto, de ficar junto, de ficar mais, de parar o tempo para que a gente não precise se separar nunca.
O apego ao passado é também o desejo de continuar vivo, de estender a vida, de não deixá-la correr tão impunemente para o fim. É um jeito de dizer: “pára, dá meia-volta, eu quero descer, ficar um pouco mais, voltar atrás, viver de novo”.
Que a própria vida é isso – “a gente chega, conta uma história e vai embora”, na definição genial de Oscar Niemeyer.
E que a angústia que você sente diante das lembranças será tão particular que você não conseguirá dividi-la com ninguém. A saudade será sempre uma dor confinada dentro de você. Um sofrimento pessoal e intransferível. Que a gente carrega como sina.
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